Gabriel Oliveira
@gabe_writes
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Estiolado

É ilusão.
Me iludo que durmo a hora que quero. Na verdade, durmo quando já não aguento mais permanecer acordado. Depois disso, me restam poucas horas de sono antes de precisar levantar cedo e repetir tudo outra vez.
Descansar. Na maioria das vezes, não descanso. Apenas fico inerte na cama, encarando o teto, algum canto da casa ou o meu tijolo mágico, esperando que isso, de alguma forma, seja suficiente.
Dinheiro. Espero o mês inteiro por ele, acreditando que, quando cair na conta, finalmente vou colocar a vida em ordem. Durante um ou dois dias sou apenas um pouco menos miserável. Logo depois, tudo volta ao estágio inicial.
Conquistas. Me iludo que algo é realmente meu porque lutei anos para consegui-lo. Mas nada nos pertence de verdade. Apenas possuímos as coisas temporariamente. É como um aluguel absurdamente caro, com um prazo de validade que ninguém conhece.
Liberdade. Me iludo que posso fazer o que quero, quando quero. Mas só posso até onde a sociedade permite, até onde o Estado permite, até onde o dinheiro alcança e até onde minhas obrigações deixam.
Tenho a sensação de que quase tudo o que chamamos de liberdade depende de alguma condição. O ser humano sempre viveu cercado de limites; com o passar do tempo, apenas mudam quais são.
Talvez existam pequenas liberdades na vida. Talvez elas nunca sejam absolutas. A gente não escolhe as cartas do jogo, mas ainda escolhe algumas jogadas.
Talvez sejam escolhas pequenas, quase ridículas diante de tudo o que nos prende. Mas, se ainda forem minhas, talvez a vida valha um pouco a pena.
Ah, sim... a rejeição.
Velha conhecida. Parceira da solidão, do abandono e da traição.
Ela sempre volta em pequenas dosagens, sempre que dou espaço. O que, hoje em dia, é raro.
A cada nova visita, o intervalo até a próxima parece aumentar. Ainda assim, é incrível que eu continue tentando.
É como cravar a lâmina em mim mesmo, sabendo que vou sangrar.
Ah, a rejeição...
Ela desperta memórias que eu nem lembrava de ter e traz de volta sensações capazes de me desmontar.
O mais curioso é que ela nunca chega de forma tranquila. Sempre explode. Direto e fundo no meu peito.
E eu me pergunto... até quando?
Como o ar que atravessa o mundo, eu atravessei esta vida.
Na luz que refleti, fótons carregaram por um instante a informação de que estive aqui. Pequenos rastros da minha existência, dispersos pelo universo.
No fim, não importa. Ou talvez nunca tenha importado tanto quanto imaginei.
Menos que uma estrela hipermassiva, mais que um átomo. Em algum lugar entre os extremos.
Passei depressa. Não posso dizer o quanto fui barulhento. Isso depende da distância de quem me ouviu. Tampouco posso dizer se fui belo ou desagradável. Isso pertence aos olhos que me viram e aos ouvidos que me escutaram.
No fim, parto como cheguei. Sem nada. Sem respostas. Sem compreender.
Enquanto meu corpo repousa sobre a terra revolvida, já não habito a matéria que um dia chamei de minha. Aos que me carregam até o túmulo, o peso sobre seus ombros é apenas matéria orgânica seguindo seu destino.
Aos que choram... se choram... também chorei inúmeras vezes.
E aos organismos que um dia devolverão cada átomo do meu corpo ao ciclo da vida...
Bom apetite.
Queria ter o poder de voltar no tempo...
Voltaria antes do vazio me tomar.
Voltaria pra antes de todas essas escolhas ruins.
Voltaria pra antes de tudo ser minha culpa
Voltaria pra quando eu ainda não carregava o peso do mundo.
Todo dia me pergunto quando esse sofrimento acaba
Mas ja me pergunto isso a tanto tempo...
Talvez a vida seja só isso...
Sofrimento.
Com a experiência da vida, aos poucos percebo
talvez eu nunca encontre alguém
Talvez eu seja um defeito desgraçado ambulante e bípede
Talvez a solidão seja meu castigo
por ter vindo ao mundo contrariando a vontade de algum deus
Ou talvez eu reclame tanto
que nem pago alguém suportaria minha energia pesada
E, por falar em energia,
a minha se esgotou
Estou em reserva
sempre à beira de desligar
Conheci uma mulher linda, perfeita até demais.
Claro… não sou mais o garoto ingênuo que acreditava no purismo.
Provavelmente, atrás desse muro de beleza, carisma e personalidade,
existe um amontoado de traumas e defeitos.
Eu estaria disposto a aceitar cada um deles…
se ela aceitasse os meus.
Mas acho isso impossível.
Meus problemas vão além do físico e do espiritual,
estão mais atrelados à minha natureza.
Pode uma mulher mudar um homem?
Pode uma mulher trazer algo de bom escondido
nas profundezas da alma de um homem?
Bom… não sei.
Não sei nem mesmo se alguem iria querer fazer isso por mim.
Provavelmente não.
Existem opções um milhão de vezes melhores que eu por aí,
e sem um décimo dos problemas.
Como disse um amigo meu uma vez:
algumas panelas são frigideiras
que ainda não perceberam a realidade.
"Desista dos seus sonhos e morra"
Meu sonho maior era ser feliz
Não sei dizer se um dia fui, talvez a felicidade seja a ausência de uma vontade fervente de morrer?
Talvez, mas nunca vou saber dizer.
Eu fecho os olhos
e as lembranças começam a vir.
Então abro os olhos.
E no teto vejo um mural,
com o retrato de cada desgraça
da minha vida pintada nele.
Então desisto
e deixo meu cérebro me torturar
no tempo dele.
Tudo o que posso fazer
é tornar o momento suportável.
Coloco uma música ambiente.
Algo que eu ouviria no fim do mundo.
E aí, se essas forem minhas horas de sono…
que ao menos o apocalipse seja bonito.
Do grego kátharsis, "purificação".
Mais do que uma palavra, é o nome dado ao instante em que aquilo que foi sufocado por tempo demais finalmente encontra uma saída...
Aristóteles descrevia a catarse como a purificação vivida pelo espectador ao testemunhar o sofrimento de uma história. A psicologia e a psicanálise enxergam esse mesmo fenômeno como a libertação que nasce ao trazer à consciência emoções, traumas e medos antes reprimidos.
No fim, talvez todas as definições apontem para o mesmo lugar: a coragem de sentir o que foi evitado por tanto tempo. Porque algumas feridas não desaparecem quando são esquecidas. Elas apenas esperam o momento em que alguém esteja disposto a atravessá-las.